Geiser Trivelato

fotografo e guia de birdwatching

Encontro privilegiado - novembro de 2006

(Trecho de matéria escrito por Geiser Trivelato sobre a Águia-chilena (Buteo melanoleucus) publicado na Revista “Terra da Gente” edição nº 33 de Janeiro de 2007)

Uma semana antes de viajar para o Parque Nacional da Serra da Canastra, consulto a lista de fauna para me preparar para as fotos, esperando encontrar - quem sabe? - o raro pato-mergulhão (Mergus octosetaceus). Entre as 354 aves listadas, duas espécies de águia chamam minha atenção, a águia-cinzenta (Harpyhaliaetus coronatus) e a águia-chilena (Buteo melanoleucus), ambas classificadas como pouco comuns e ameaçadas.

Em São Roque de Minas, minha porta de entrada, conheço o guia José Maria Fernandes, que me acompanharia por 5 dias. Já nos 2 primeiros dias avisto diversas espécies que até então para mim só pertenciam a páginas de livros e revistas! No terceiro dia, partimos para o Fundão, distante mais de 40 km da cidade. “O Fundão é um dos locais onde se pode avistar o pato-mergulhão, mas também anda por lá um casal de aves de rapina. Elas são bem grandes e de cauda bem curta. Quem sabe a gente confirma se é a famosa águia-chilena”, disse Zé Maria. E com essa expectativa percorremos a estrada precária, até deixarmos a caminhonete ao pé das encostas e percorremos mais 2 km a pé. O guia divide o olhar entre a trilha e o céu: “Se chover, a gente não vai conseguir subir a Serra. Temos que ficar de olho no tempo, ou vamos passar a noite por aqui mesmo!” Com a pressa em retornar, o sol a pino, e o calor de rachar, a trilha acidentada e pedregosa fica ainda mais difícil. Não vimos nenhum pato-mergulhão. O horário não era dos melhores. Mas quase uma hora depois lá estava a Cachoeira do Fundão!

Entre uma foto e outra, ouço Zé Maria gritar: “Olha lá o tal casal de aves!” Daquela distância  - cerca de 200 metros - não dava para confirmar a espécie. Uma delas pousa no paredão rochoso, sobre um cacto, e com o auxílio do binóculo vemos grandes gravetos arrumados sobre a planta. Era um ninho!

Em minutos um Gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis) aproxima-se e é rechaçado num ataque de advertência. Mas a tentativa nos ajuda a avaliar o tamanho das águias, cujas asas têm quase o dobro da envergadura do gavião. A última prova é a vocalização, que logo vem, num grito agudo. Era mesmo a águia-chilena!

Começamos a subir, contornando o paredão para nos aproximarmos. As aves deixam as escarpas do penhasco e começam a planar em círculos. Continuamos abaixo do ninho. Enquanto uma ave voa e vocaliza, a outra pousa no ninho, para em seguida alçar vôo, e dar lugar à primeira, num tipo de revezamento.

Quando nos damos conta, já é tarde e o tempo começa a mudar. Nuvens escuras dão o alerta no horizonte e tratamos de tomar o caminho de volta, em ritmos acelerado. Escapamos por pouco do aguaceiro, que só cai quando estamos no topo da Serra.

Combinamos de voltar no dia seguinte, mas dessa vez vamos direto para a parte alta do penhasco. Não há estrada, portanto saímos ao amanhecer. Em duas horas atravessamos a vau o Rio Santo Antônio, que forma a Cachoeira do Fundão. Começamos a andar na margem, na direção do penhasco e avisto um macho de campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens), pássaro raro e muito bonito, todo azul com o bico amarelo, habitante de campos rupestres bem preservados.

Prosseguimos até chegar ao abismo, onde logo avistamos o casal de águias, planando sobre nossas cabeças, bem perto!

Já para ver dentro do ninho, a dificuldade aumenta. Precisamos usar uma corda de segurança para chegar até a beirada. Mas vale a pena, pois o ninho tem um filhote! Estrategicamente construído sobre um mandacaru, o ninho parece firme, feito com gravetos grandes. O filhote, bem desenvolvido, mantém poucos sinais de penugem, parece prestes a ganhar os ares por conta própria. Percebendo alguma agitação entre as aves adultas, visto a roupa de camuflagem e me escondo, de forma a não perturbar a rotina das aves. Logo uma das águias pousa com uma presa nas garras, talvez uma codorna ou perdiz. Fotografo aquela cena, que jamais imaginei poder um dia presenciar! É um momento único, um privilégio!

Antes de partir, olho para o ninho mais uma vez e peço proteção para aquele filhote, para que ele consiga chegar à idade adulta com sucesso, vencendo as barreiras impostas pela natureza e, principalmente, pelo homem!  

 

Terra da Gente na Serra da Canastra em busca da Águia-chilena - novembro de 2006

(Texto publicado no livro Bastidores, comemoração dos 10 anos da revista Terra da Gente)

Foi um enorme prazer ter voltado a Serra da Canastra com o pessoal da Revista “Terra da Gente”, um mês depois de eu ter descoberto um ninho de Águia-chilena (Buteo melanoleucus) em um penhasco nesta região. Me acompanharam nesta aventura a Repórter Angélica Pizzolatto e o assistente e motorista Geraldo Costa. Lá nos encontramos com o guia local José Maria Fernandes e formamos nossa equipe em busca do primeiro vôo do filhote da águia. Dia 07/11/2006 chegamos à tardinha no local e nada do filhote estar no ninho. Comecei a me preocupar, pois toda viagem corria o risco de ir por água abaixo, mas a esperança retornou ao avistarmos o filhote por um breve instante voando por perto. Voltamos então no dia seguinte ainda de madrugada, para chegarmos antes de clarear no local e assim quem sabe pegarmos o filhote dormindo no ninho. Mas quando fomos deixar o veículo para prosseguir nossa caminhada de mais de 1 km foi que percebemos que havíamos esquecido um item essencial: o farolete! Apenas o Geraldo é que possuía uma minúscula lanterna um pouco maior que uma caneta e que foi a nossa salvação! Seguimos então os quatro bem próximos um do outro em fila indiana nos guiando apenas por aquele pequeno facho de luz através da escuridão que tomava a Serra da Canastra! Mas mesmo nesta situação conseguimos vencer o terreno pedregoso e acidentado e atravessar as corredeiras do Rio Santo Antônio e assim chegarmos até próximo ao ninho antes do dia clarear, e assim flagramos o filhote no local e foi possível realizar as esperadas fotos e a Angélica pode com tranqüilidade fazer suas anotações que serviram mais tarde para escrever sua brilhante matéria que fora publicada na edição nº 33 em janeiro de 2007.

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