Geiser Trivelato

fotografo e guia de birdwatching

Como fotografar a vida selvagem

 

Fotografar a natureza, especialmente a vida selvagem que vive nas florestas, campos, cerrados, caatingas, mangues e outros habitats de nosso país é uma tarefa para quem realmente gosta do que faz! Temos que enfrentar o calor e o frio, a chuva (muitas vezes tempestades), os espinhos e cipós impenetráveis, as plantas urticantes, os animais peçonhentos como cobras, aranhas, escorpiões, lagartas (que causam queimaduras na pele em quem encostar nelas), além de todo tipo de insetos; vespas, formigas e mosquitos capazes de transmitir doenças como a malária, a febre-amarela, a Leishmaniose só para citar algumas, são obstáculos que fazem desta uma profissão que tem lá seus riscos! Mas nestes meus 10 anos como fotógrafo de natureza nunca me ocorreu nada de mais grave. É claro que não se deve abusar e tomar algumas precauções é o que recomendo. Por exemplo: - Usar sempre uma perneira ou calçado de cano alto e de couro para prevenir se caso pisar sem querer em uma serpente venenosa.

  • Olhar sempre antes o local onde irá colocar as mãos.
  • Usar repelente e um chapéu ou boné para proteger e evitar insolação nos dias muito quentes.
  • Ter sempre um cantil com água potável para se hidratar (não se deve beber a água de riachos ou córregos, mesmo que esta pareça limpa e pura).
  • Carregar sempre um farolete e não se afastar muito das trilhas, especialmente em locais desconhecidos e que não esteja acompanhado de um guia local para evitar se perder.
  • Estar sempre atento ao ambiente a seu redor.

Além de todos estes inconvenientes já citados, existe ainda o fator do peso de todo equipamento a ser transportado em campo. Apenas uma teleobjetiva para fotografar aves pode pesar cerca de 10 Kg, como é o caso da super tele 600 mm f/4 da Canon. Mas todos estes obstáculos a serem vencidos, somados a habilidade natural dos animais que usam seus sentidos apurados para fugirem dos seres humanos, faz da realização de uma boa fotografia, um momento único e mágico capaz de causar uma satisfação imensa para o autor do registro e trazer a sensação de que todo esforço foi recompensado!

Imagine ainda ter como local de trabalho um cenário onde vivem centenas de espécies de mamíferos, répteis e anfíbios, mais de 1.800 espécies de aves diferentes, sem falar nas incontáveis espécies de insetos e plantas, muitas ainda nem descritas pela ciência. Pois este é o Brasil natural que se apresenta diante do fotógrafo de vida selvagem, o que garante trabalho para toda uma vida e nem mesmo assim seria possível fotografar tudo!

Em relação aos equipamentos fotográficos necessários para se registrar a natureza, é fundamental a aquisição de um corpo de câmera que permita a troca de lentes. Hoje em dia existem no mercado inúmeras marcas e modelos de excelente qualidade, mas as câmeras do formato 35mm e SLR (Single Lens Reflex = Reflexas de Lente Única) das marcas Canon e Nikon são sem dúvidas às mais usadas para este fim. Elas podem ser as convencionais que utilizam os filmes negativos e slides ou podem ser digitais, que nos últimos anos evoluíram bastante. As que possuem 8 Megapixels ou mais de resolução já estão no mesmo nível de qualidade na imagem que as de filme, na minha opinião. E por que adquirir uma câmera que aceite a troca de lentes para se fotografar à natureza? A resposta é a seguinte; é impossível fotografar todos os assuntos que se apresentam com uma única lente, pois para se fotografar um pequeno inseto, uma ampla paisagem ou uma ave muito distante, seria necessário ter lentes de diferentes distâncias focais. Estas distâncias focais são mostradas em milímetros nas lentes. Uma distância focal de 50 mm é comparada com o mesmo ângulo da visão humana. Portanto se utilizarmos uma lente de 100 mm, poderíamos dizer que estamos usando uma distância focal que aumenta 2x mais que a nossa visão tem de alcance. Seguindo esta idéia, portanto uma lente de 500mm teria um aumento de 10x e uma de 1000mm teria um aumento de 20x. A seguir seguem alguns exemplos da lente correta para os seguintes casos:

- Para fotografar paisagens amplas onde se deseja mostrar o máximo de elementos possíveis, como um rio com as montanhas ao fundo e as flores em primeiro plano, deve-se usar uma lente que chamamos de grande-angular. As lentes podem ser consideradas como grande-angulares desde que tenham uma distância focal menor que os 50mm (que correspondem ao ângulo de visão humana, como já dissemos). Uma lente de 35mm, 28mm, e até de 15mm, são exemplos de lentes grande-angulares. E quanto menor for este valor em mm, maior será o ângulo que se poderá fotografar. Portanto estas lentes são as que utilizamos para fotografias de paisagem, onde se deseja mostrar tudo à nossa volta.

- Para fotografar um pequeno inseto, mostrando ele bem grande e com detalhes na foto, devemos utilizar uma lente que chamamos de Macro. A lente macro tem como principal diferença em relação a outras, permitir que o foco seja realizado muito próximo do elemento que se esta a fotografar. Com elas é possível quase encostar a lente no assunto, que mesmo a poucos centímetros o foco será realizado, e com isso, mesmo sendo um pequeno inseto, o resultado é que na fotografia ele aparecerá em bom tamanho e mostrando detalhes das asas, dos olhos, das pernas, que seriam impossíveis de se notar sem o uso de uma lente como esta. As distâncias focais de uma lente macro geralmente variam muito. Um bom exemplo seria uma 100mm, pois ela permite se tomar fotografias sem se aproximar tanto, já que tem um aumento de 2x, o que às vezes é necessário para não espantar o assunto que se esta a fotografar.

- Para fotografar grandes aves e mamíferos em geral, uma teleobjetiva de 300mm (6x de aumento) já é o suficiente.

- Para fotografar aves menores, aconselho uma teleobjetiva que esteja acima dos 400mm de distância focal (ou seja, acima de 8x de aumento). Uma das lentes mais usadas para este caso é a 600mm, mas que dependendo da luminosidade que ela possuir (se for uma lente muito clara, por exemplo) vai custar uma pequena fortuna e quem estiver interesse em adquirir uma destas, terá que desembolsar entre 15.000,00 e 25.000,00 reais, dependendo da marca e de alguns recursos que estas fantásticas lentes possuírem, como o Foco Automático super rápido e a Estabilização de imagem.

Deixando o assunto sobre as lentes, outro acessório indispensável que qualquer fotógrafo de natureza deve possuir é um bom flash. Não aquele pequeno flash que já vem incorporado na maioria das câmeras e que ajudam apenas para assuntos bem próximos, mas estou me referindo aos potentes flashes externos que são montados nas sapatas sobre as câmeras e que permitem fotografar uma coruja à noite a uma boa distância, por exemplo. Estes flashes não são úteis apenas para as fotografias noturnas, mas também em muitos casos durante o dia, como para fotos no interior das matas sombrias, em situações em que se quer iluminar o assunto que se encontra em contra-luz para evitar que este apareça apenas como silhueta ou ainda pode ser usado para iluminar as áreas de sombra em uma foto.

Como para fotografar animais na maioria dos casos é necessário o uso de Teleobjetivas de grande poder de aumento e com distâncias focais acima de 300mm, um problema muito freqüente que se apresenta nestes casos são as fotografias tremidas e desfocadas causadas justamente pela falta de firmeza e apoio para estas lentes, que ao menor sinal de vibração ou movimento na hora do click, causam este tipo de problema. Para resolver isto, um tripé firme e estável é a melhor solução. No caso de não estar com um destes em alguma ocasião, procure por algum apoio natural para a câmera e a lente. O tronco de uma árvore, uma grande rocha, um cupinzeiro, um mourão de uma cerca são alguns exemplos em que se pode apoiar o equipamento e que darão um melhor resultado final, completamente diferente do que se você tivesse feito à foto apenas com o auxílio do corpo e das mãos. Uma outra dica para melhorar os resultados das fotos feitas com teleobjetivas, seria a compra de lentes que possuem o recurso de Estabilização de imagem. Elas são representadas pelo símbolo IS (nas lentes da Canon) e VR (nas lentes da Nikon) e apesar de serem lentes bem caras, fazem verdadeiros milagres, mesmo com fotos tiradas nas mãos em condições de baixa luminosidade.

Um bom binóculo também deve sempre estar entre os itens a serem levados a campo. Eles auxiliarão na hora de encontrar ou identificar espécies a serem fotografadas e que poderiam passar despercebidas a olho nu. Deve se evitar os que apresentem variações de zoom. Binóculos com um aumento fixo entre 8 à 10 vezes são os ideais. Podemos citar o de 8x 42mm ou um de 10x 50mm como indicados para a observação da vida selvagem.

Outra tecnologia que já pode ser usada pelo fotógrafo de natureza são as câmeras fotográficas que disparam sozinhas quando os animais se movimentam em frente sua lente. São equipamentos úteis principalmente para a fotografia de mamíferos de hábitos noturnos que dificilmente avistamos na natureza. Elas possuem um sensor infra-vermelho que detecta o movimento e faz disparar a câmera e o flash que ficam localizados dentro de uma espécie de caixa protetora. Esta proteção é necessária para o caso de chuva por exemplo, já que estas câmeras são armadas geralmente amarrando elas a um tronco de uma árvore e são deixadas no local, as vezes por vários dias e noites para que possam dar bons resultados. Os modelos digitais são os mais indicados, pois com filme existirá sempre a possibilidade dele acabar quando o fotógrafo não estiver por perto.

O fotógrafo de vida selvagem deve ser discreto quando estiver em campo, tanto nos seus hábitos (movimentar-se devagar e procurar causar o mínimo de ruídos possível) como nas roupas que veste. Estas não devem ser de cores vivas ou berrantes. A idéia é sempre passar despercebido aos olhos dos animais. Portanto, roupas de tons neutros como preto, cinza, caqui, marrom, verde, além das camufladas como as usadas pelo pessoal do exército são as mais indicadas! Um colete também de cor neutra e com muitos bolsos é um acessório muito útil, pois permite ter baterias, pilhas, lentes menores, filmes e muito mais ao alcance das mãos do fotógrafo.

Os animais têm muita desconfiança dos seres humanos e basta para eles enxergarem a silhueta de uma pessoa vindo caminhando em sua direção, para se colocarem em fuga no sentido contrário. Montado em um cavalo, em uma motocicleta, carro ou qualquer veículo motorizado é possível se aproximar bem mais dos animais e com isso conseguir boas imagens deles. Agora quando se esta a caminhar, talvez seja mais produtivo ao entrar em uma mata, não ficar andando de um lado para o outro, e sim esperar em um mesmo local durante longos períodos. Só assim será possível ouvir o canto dos pássaros ou o caminhar de um mamífero nas proximidades. Uma tenda ou barraca camuflada, onde o fotógrafo possa ficar acomodado lá dentro juntamente com a câmera e objetiva montadas em um tripé e com aberturas laterais para se colocar apenas a lente é uma ótima alternativa para estas longas esperas. E há escolha destes locais de espera também merecem à atenção do fotógrafo de vida selvagem. Boas pedidas são as áreas próximas a bebedouros e barreiros naturais, ninhos e tocas, árvores com flores ou frutos, trilhas feitas pelos próprios animais, ou mesmo nas proximidades de uma ceva preparada com antecedência pelo próprio fotógrafo, onde se oferecem frutas, milho, quirela, sementes e outras guloseimas para atrair à fauna.

Para fotografar a natureza em geral, mas especialmente para as aves, o melhor horário é o das primeiras horas da manhã. Portanto quem desejar observar ou fotografar nossa avifauna, terá que estar em campo o mais cedo possível. O ideal é que assim que o sol aponte no horizonte, já estejamos a postos para nossas atividades. Este é o horário que a grande maioria das aves estão mais ativas, procurando alimento, cantando, etc. Ele se estende do amanhecer até umas 09:00h ou 10:00h da manhã. Depois deste horário, diminuem muito suas atividades ficando imóveis e silenciosas durante boa parte da tarde (quando geralmente o sol esta mais quente) voltando novamente aos afazeres antes do entardecer, o que traz novas oportunidades para o fotógrafo normalmente das 16:00h em diante. Além disso, as primeiras horas da manhã e as últimas horas antes do anoitecer são as que apresentam melhor luz, não só para a fotografia da fauna como também para as fotos de paisagem, como as fotos do pôr-do-sol, por exemplo.

Com relação aos locais para se fotografar a vida selvagem, existem excelentes opções por este Brasil afora. É claro que um fotógrafo de natureza um dia terá que fazer uma viagem ao Pantanal ou para a Amazônia. Mas muitas vezes existem locais bem mais próximos, que custarão muito menos ao bolso do viajante, e muito bons em biodiversidade que passam despercebidos da maioria, talvez por serem pouco divulgados pela mídia. Uma boa opção é procurar pelos Parques Nacionais, Estaduais ou Municipais, ou mesmo por outras áreas de preservação, como APAs e RPPNs que fiquem mais próximas. Mesmo a área de nosso próprio município, independente da região que ele esta localizado, é uma ótima opção a ser explorada. E não só a zona rural merece nossa atenção. Mesmo dentro de cidades é possível encontrar espécies interessantes, principalmente naquelas que possuem praças e ruas bem arborizadas. Um bom exemplo de como devemos ter atenção as aves na zona urbana, aconteceu comigo em Dezembro de 2006, quando ao sair na calçada em frente minha casa em Jacutinga (MG), me deparei com um raro Urubu-rei (Sarcoramphus papa) voando em círculos a uma boa altura, ocasião na qual aproveitei para fotografá-lo em vôo, apesar da grande distância.

Uma dica para quem deseja fotografar os animais é a de evitar colocar como fundo em uma foto, aquele céu cinzento quando o dia estiver fechado e chuvoso. Imagine um Bentevi (Pitangus sulphuratus) pousado na ponta de um galho seco ou na fiação elétrica de uma rua. Você chega bem embaixo e mira a câmera para cima colocando o céu escuro e carregado que se apresenta neste dia nublado como fundo do Bentevi. O resultado vai ser desastroso (a não ser que se utilize um flash bem potente), pois na foto o pássaro aparecerá como uma mancha escura, mostrando apenas sua silhueta e não revelando nenhuma de suas cores, como se pretendia.  Para tentar resolver este problema o fotógrafo deve se movimentar de modo que de outro local ele consiga visualizar o pássaro com outro fundo que não seja o céu nublado. As copas das árvores ou um penhasco podem servir como fundo, por exemplo. Nestes casos o fotógrafo pode também se deslocar para o ponto mais elevado que se apresente no ambiente a seu redor, o que permitirá que ele mire sua câmera para baixo evitando também este problema. Mas caso todas estas alternativas não sejam possíveis de se por em prática no local, o melhor a fazer seria focar seu objetivo nos animais e pássaros que se apresentem o mais próximo do solo ou do sub-bosque e deixar os do alto das copas para um dia em que o tempo ajudar.

Por fim, acho que todo fotógrafo de natureza deve ter a curiosidade e o interesse de estudar sobre os temas que se apresentem no seu dia a dia. Saber o que se esta fotografando só fará aumentar o encanto e o desejo de lutar pela preservação do mesmo. Não deixo de levar em minha mochila quando estou fotografando, um guia de campo sobre as Aves do Brasil para ajudar na identificação. Anotar em uma caderneta os hábitos do animal que se esta a fotografar ou observar, além do horário, data, local, tipo de ambiente onde se encontrava, podem ser informações muito úteis para o futuro. Não é porque você é um fotógrafo da fauna que as plantas devem ser esquecidas. Pelo contrário, o interesse por elas pode auxiliar nas fotos dos animais! Como exemplo, se você souber identificar a árvore de um fruto que várias espécies de pássaros estavam se alimentando, poderá voltar ao local no próximo ano na época da frutificação que muito provavelmente encontrará aqueles pássaros novamente. Conhecer os cantos e sons dos animais é muito importante para o fotógrafo de natureza. Em uma mata fechada é muito mais fácil ouvir do que visualizar os bichos. Um gravador acoplado em um microfone direcional dá a oportunidade ao fotógrafo de além de ter um canto desconhecido gravado para ser analisado com calma em casa, que ele possa também ser reproduzido na mesma hora, atraindo assim para próximo das lentes o bicho de canto desconhecido que ele acabou de gravar. Com recursos como a Internet, podemos ainda baixar para um aparelho de MP3, a maioria dos cantos de aves brasileiras e com o auxílio de mini-caixas de som acopladas a ele, reproduzir os cantos das espécies que desconfiamos existir em uma determinada mata, por exemplo. Mas é preciso muito cuidado e um mínimo de ética para saber que não se esta exagerando. Reproduzir o canto de uma ave faz com que ela se prontifique a defender seu território de um provável invasor, e a repetição de seu canto por longos períodos pode deixá-la muito perturbada. Outro cuidado que devemos ter é com relação à fotografia dos ninhos. Nunca devemos insistir neste tipo de foto por muito tempo, pois podemos causar o abandono dos mesmos pelos pais, o que seria um preço muito alto à ser pago, em troca de uma simples fotografia.

Por fim, procurei citar nesta matéria, apenas o básico sobre a fotografia de natureza. Sugeri equipamentos e coloquei algumas dicas e truques que podem ajudar em campo. E como me considero mais um naturalista do que um fotógrafo profissional, deixo a parte técnica de fora, além do que seriam necessárias várias páginas sobre esta parte, o que daria para escrever um livro sobre o assunto. Portanto quem quiser realmente se aprofundar e saber como trabalhar com as regulagens de velocidade, abertura, ASA e muitas outras que uma câmera fotográfica oferece, sugiro procurar por um curso de fotografia ou mesmo adquirir revistas e livros especializados.