Geiser Trivelato

fotografo e guia de birdwatching

A RPPN Sesc Pantanal - agosto de 2003

Nos dias 21 e 22 de Agosto de 2003, eu Geiser Pereira Trivelato e meu pai, o Sr. Arivelto Trivelato tivemos a oportunidade de conhecer a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Sesc ,com a intenção de documentar através de fotos, as belezas naturais ali existentes. Localizada no Pantanal norte, no estado de Mato Grosso, entre os rios Cuiabá e São Lourenço, a reserva ocupa uma área de 106 mil hectares aproximadamente e tem como principal objetivo, preservar o Pantanal.

No dia 21, partimos do Hotel Sesc Porto Cercado após o almoço, e acompanhados pelo Guarda Parque Cássio, pegamos um barco à motor e subimos o rio Cuiabá por aproximadamente 45 minutos, até chegarmos a um local às margens do rio onde se tinha acesso a estrada que nos levaria ao interior da RPPN. No local, já se encontravam outros Guardas Parque, os quais nos receberam muito bem, também lá se encontravam uma charrete e uma caminhonete 4x4. Após alguns minutos, chegou ao local um carro de boi, que serviu, juntamente com a caminhonete, para transportar todo o material (Principalmente alimentos) aos Guardas Parque que ficariam na Reserva pelos próximos 12 dias, que é o tempo que cada guarda permanece em trabalho, e depois tiram 4 dias de descanso, enquanto outro o substitui  fazendo um revezamento entre eles.

Depois de colocar todo o material nas conduções, partimos na caminhonete juntos com o Cássio e mais 3 guardas com destino ao primeiro posto avançado da RPPN, o posto Espírito Santo, distante 13 km da margem do Rio Cuiabá. A Reserva conta com 4 postos (Espírito Santo, São Luís, Santo André e Santa Maria), localizados em locais estratégicos, para facilitar a ação dos guardas parque. Cada posto conta com uma pista de pouso para aviões de pequeno porte, uma torre de 36 metros de altitude com uma ampla visão da planície , o que facilita muito à localização de queimadas na área pertencente à reserva, uma área construída para realização de pesquisas, outra que serve como moradia aos guardas parque e pesquisadores  e que conta com energia solar , gerador  e água de poços artesianos.

Chegando ao posto Espírito Santo fizemos uma rápida parada para conhecermos o local e deixar  um  dos  guardas que nos acompanhava. Logo ao descermos do veículo o guarda parque Cássio nos mostrou um casal de araras azul que se alimentavam dos frutos da palmeira bocaiúva. A nossa passagem por ali foi bem rápida e logo já estávamos percorrendo os 5 km que separam o posto Espírito Santo do segundo posto da RPPN que era o Posto São Luís. Nestes 5 km sempre em trilhas bem rústicas no meio do cerrado e de Capões de mata, pudemos observar cutias e quatis atravessando rapidamente  à frente de nosso veículo.                                         

Chegamos ao Posto São Luís  e logo fomos informados que aquele local se tratava de uma espécie de base central da RPPN, onde se encontravam os carros pipa capazes de lançar jatos de água à grandes distâncias, tratores capazes de abrir aceiro para impedir a propagação de incêndios e galpões para armazenamento de outros materiais úteis. Este trabalho de combate à incêndios na Reserva do Sesc se tornou muito eficiente, pois desde o ano de 1999, a área de 106 mil hectares da RPPN não teve mais grandes queimadas, pois elas são combatidas no início pelos Guardas Parque e por uma brigada de mais de 30 homens treinados para combater o fogo.

Quanto aos meios de transporte e patrulhamento da área à RPPN do Sesc possui além da caminhonete já citada anteriormente, um pequeno avião que é muito útil para o local pois permite uma maior cobertura da área em um menor tempo. Existem também muitos cavalos, charretes e alguns barcos a motor, todos úteis principalmente na época da cheia. Na nossa opinião, que estávamos visitando a reserva pela primeira vez, apesar de todos os meios de transporte já citados, achamos que ainda é insuficiente para cobrir toda área da Reserva. Talvez a aquisição de mais uma caminhonete e talvez até a utilização de motos pelos guardas parque seja uma boa maneira de eles se deslocarem pela reserva, na época da seca.

No Posto São Luís também se encontrava o biólogo Edson de Souza Lima da ONG Funatura, que nos explicou o seu trabalho na RPPN do Sesc. Ele nos explicou que trabalhava com a telemetria em grandes carnívoros (onça pintada, onça parda, lobo guará e cachorro do mato vinagre). Este trabalho consistia em capturar indivíduos de alguma destas espécies mencionadas anteriormente através de armadilhas ou tiros com dardos tranqüilizantes e após o animal estar sedado coloca-se uma espécie de coleira com transmissores para facilitar encontrar o animal depois de solto. Os animais que já possuem coleiras com transmissores são rastreados  e com isso é possível se fazer um estudo da área de vida de cada espécie dentro da Reserva e poder indicar um programa de ecoturismo no futuro para a RPPN.

Um dos fatores que mais nos impressionou positivamente na RPPN do Sesc, foi a quantidade e a qualidade das pesquisas que vem sendo realizadas na área da reserva. Além do projeto de telemetria em grandes carnívoros, mencionado anteriormente, existem aproximadamente mais 30 projetos de pesquisa envolvendo todas as áreas (mamíferos, aves, peixes, insetos, flora, clima, paisagem) e também um projeto envolvendo as comunidades locais, visando sensibilizá-los sobre a importância da conservação e o uso sustentável dos recursos naturais.

Alguns projetos realizados atualmente na RPPN são:

  • Projeto avaliação dos peixes do Rio Cuiabá (Dra. Emiko Kawarani de Resende, Embrapa)
  • Projeto coleção entomológica (Dra. Rosina Djunko Miyasari, Universidade Federal do Mato Grosso) coletas de espécies para coleção de insetos.
  • Projeto pequenos mamíferos (Dr. João Alves de Oliveira, Museu Nacional do RJ) com objetivo de catalogar as espécies de pequenos mamíferos existentes na reserva.
  • Sub projeto Quirópteros (morcegos) Dr. Fabrício Escarlate, Museu Nacional do RJ.
  • Projeto arara azul (Regina Yabe e Emilene Ribas, Ipê Consultoria em meio ambiente) catalogar o maior número possível de ninhos de arara azul.
  • Projeto Flora (Dra. Raquel R. B. Negrelle, Universidade do Paraná) objetivando o levantamento das espécies vegetais da RPPN e com isso, a busca do uso da vegetação para o desenvolvimento regional, ou seja, gerar rendas para às comunidades entorno da RPPN.

Além dos pesquisadores, a reserva é freqüentemente visitada por jornalistas e fotógrafos da natureza que vem até o local em busca de imagens que certamente não conseguiriam em outro lugar. Este ano a Rede Globo de televisão esteve na Reserva gravando o programa Globo Repórter, através de seu repórter Francisco José, com as imagens sendo gravadas pelos cinegrafistas José de Arimatéia e Haroldo Palo Jr. Este último por sinal, que além de fazer filmagens, também é um dos melhores fotógrafos naturalista do país e já esteve várias vezes no local, onde pode realizar um belo trabalho fotográfico que está em exposição no CIA (Centro de Interpretação Audiovisual) localizado no Hotel Sesc Porto Cercado. Outro importante meio de comunicação que recentemente esteve na RPPN do Sesc foi a famosa e internacional, National Geographic que enviou seu fotógrafo para conseguir imagens de uma fêmea de lobo guará que se encontrava com filhotes.

Bem, voltando aos acontecimentos no posto São Luís, após a nossa conversa com o biólogo Edson, eu pude dar uma caminhada até uma pequena possa de água que se encontrava a poucos metros da sede do posto. Lá, pude observar um casal de patos do mato e também um corócoró que se alimentava nas águas rasas do local. Outro fato curioso, que aconteceu nesta nossa breve passagem pelo posto São Luís, foi o do Guarda Parque Marco Antônio, aparecer de repente segurando um tatu-peludo pelo cauda. Ele nos mostrou o animal e logo o soltou.

Logo ao partirmos do posto São Luís rumo ao nosso destino final que seria o Posto Santo André, distante 10km, encontramos com uma fêmea de cervo do pantanal, eu desci da caminhonete com a minha máquina fotográfica e tentei me aproximar , ao caminhar alguns metros percebi que também havia uma cutia logo a minha frente, mas por ser a primeira vez que eu avistava um animal tão raro e bonito como o cervo, deixei a cutia um pouco de lado e tentei me aproximar mais um pouco da fêmea do cervo, que logo notou minha presença e fugiu para a vegetação mais fechada.  Apesar de não conseguir tirar a foto que pretendia, valeu muito, por termos avistado aquele belo animal.

Percorremos os 10 km até o posto Santo André, e por volta das 17 horas, chegamos ao nosso destino final. O Posto Santo André era o terceiro posto da reserva, estava à 28 km da margem do Rio Cuiabá e a 8 km do último posto da RPPN que era o Posto Santa Maria que se encontra à margem do Rio São Lourenço. Ao parar o veículo, o guarda Marco Antônio que estava na direção nos mostrou um bando de jandaias-rei que se encontravam no chão, depois apontou para a caixa de água a nossa frente, e para nossa surpresa, havia cerca de 10 araras-azul pousadas no local. Ao descermos da caminhonete notamos que as araras não se encontravam apenas na caixa de água. Havia araras-azul pelas árvores, nas cercas de arame, no chão e a todo momento elas passavam voando sobre nossas cabeças quase sempre aos pares e fazendo grande algazarra. Foi um dos maiores espetáculos , que já havíamos presenciado. Aproveitamos a ocasião para tirar bastante fotos e só depois fomos conhecer as dependências do local. O guarda parque Marco Antônio descarregou nossas mochilas da caminhonete e voltou para o posto São Luís, nos deixando na companhia do guarda parque Cássio que nos acompanhava desde o Hotel do Sesc. Ao entrarmos no recinto, Cássio nos apresentou ao seu colega de trabalho, o guarda  Guilherme . Eles nos mostraram o nosso quarto onde deixamos nosso equipamento, e depois nos chamaram para tomarmos café. Guilherme havia acabado de preparar um pão de casa e nos serviu com manteiga e café à vontade.                                          

Guilherme, nos contou um pouco de sua história como quarda parque da RPPN do Sesc. A Reserva foi criada em 1997, após o Sesc ter comprado ás áreas pertencentes a algumas fazendas de gado que existiam na região. Como Guilherme era nascido, criado e trabalhou toda sua vida nestas fazendas, ele conhecia como ninguém a área em que o Sesc pretendia criar a Reserva. Consequentemente, Guilherme foi o escolhido para se tornar o primeiro guarda parque. Ele foi chamado para conversar sobre o que seria criado e sobre quais seriam os objetivos futuros para a região e acabou aceitando o novo desafio.   

Guilherme também nos contou orgulhoso, que quando  começou a trabalhar como guarda parque no posto Santo André, ele cortava alguns cachos de acurí e colocava próximo a sede do posto, para atrair as araras azul.  No começo, apareciam apenas 1 casal de araras, e com o passar do tempo esse número foi aumentando. Hoje em dia, já foi possível contar mais de 30 araras azul pousadas no chão, comendo os frutos de acurí que Guilherme coloca todas as manhãs com todo carinho. 

Por  volta das 18 horas, resolvemos subir na torre de observação de 36 metros para termos uma ideia melhor sobre a região e também para podermos observar lá de cima o por do sol. Como só era possível subir uma pessoa de cada vez, meu pai subiu primeiro, seguindo as orientações do guarda Cássio, enquanto eu aproveitava para tirar algumas fotos. Logo, ele desceu, e me ensinou como fazer para subir e descer com mais facilidade. Lá de cima, eu pude observar admirado a grandiosidade do local, enquanto o sol se escondia no horizonte deixando o céu com  lindas tonalidades de cores. Quando, eu começava a descer da torre, eu avistei lá de cima um casal de tamanduás bandeira, logo gritei para meu pai, e ele tentou se aproximar dos animais com a filmadora  pronta para gravar. Mas como os dois animais se encontravam a uma boa distância, quando ele chegou ao local os bichos já tinham entrado em uma região de vegetação mais alta e não foi possível mais avistá-los.

À noite não demorou à vir no Posto Santo André, então só nos restou, esperarmos pelo próximo dia, em meio a uma boa conversa, quase sempre contada pelo Guarda Parque Guilherme. Quanto ao alojamento em que nos encontrávamos, era um local espaçoso, com cozinha, sala, quartos e dois banheiros. Havia uma televisão, e era possível conversar através de rádio, com os outros postos da reserva e também com o Hotel do Sesc em Porto Cercado.  Considerando o local de difícil acesso, principalmente na época da cheia em que o único meio de transporte é o cavalo, a estrutura oferecida pelo local, já é bem boa, apesar de não ter o conforto que o Hotel do Sesc oferece.  Falta por exemplo, água aquecida para se tomar banho. Segundo nos foi informado, já estão estudando para o ano de 2004, uma maneira de levar pequenos grupos de turistas que estejam hospedados no Hotel Porto Cercado para passarem uma noite em algum dos 4 postos que existem no interior da RPPN do Sesc.   É na nossa opinião, uma boa ideia, desde que os turistas, não venham à interferir de alguma maneira no equilíbrio existente entre animais e plantas que ainda se encontram em estado selvagem na reserva. Por volta das 20 horas foi servido o jantar que Guilherme e Cássio prepararam,  uma boa comida caseira com arroz, feijão e galinha, e após o jantar, como estávamos um pouco cansados pela longa viagem realizada durante o dia, logo nos recolhemos ao nosso quarto e fomos dormir.

No dia seguinte, 22 de agosto, acordamos bem cedo, por volta das 6 horas, e logo avistamos um casal de cachorros do mato conhecido como lobinho na região, os dois passaram brincando um com o outro, à poucos metros da sede do posto, onde nos encontrávamos. As araras azul já se encontravam por ali também. Os papagaios verdadeiro faziam um grande alarido, e eu pude fotografá-los  quando pousaram em uma árvore logo ao meu lado. A cerca de uns 100 metros de onde nos encontrávamos pudemos avistar, um grande bando de papagaios que estavam pousados no solo e levantaram vôo todos de uma só vez, devia haver mais de 50 aves juntas. A japuíra também apareceu e pousou em um coqueiro onde encontrava seu grande ninho em forma de bolsa.

O Guarda Cássio preparou a charrete e por volta das 7 horas, após termos tomado o café da manhã, partimos nela, com objetivo de chegarmos a algumas lagoas que ainda continham água e onde seria mais fácil de encontrarmos algum animal. Após termos andado apenas alguns metros Cássio avistou um grande macho de cervo do pantanal, ele parou a charrete e eu pude descer e caminhar com cuidado em sua direção , para me aproximar um pouco mais e conseguir uma boa foto. O belo animal ficou parado o tempo necessário, sempre olhando em nossa direção, e assim eu pude bater a foto e observar com mais detalhes à galhada de 7 pontas que ele tinha sobre a cabeça.  Continuamos percorrendo de charrete às trilhas da reserva, sempre avistando alguma espécie, como o surucuá, o príncipe ou verão, e o tucanuçu e também belos exemplares de ipês amarelos e roxos, conhecidos como peúvas na região e que se encontravam floridos nesta época do ano. Chegamos a uma das lagoas e o Guarda Parque Cássio amarrou o cavalo à alguns metros de distância para não assustar algum animal que aparecesse para tomar água na poça.  Sentamos às margens da lagoa escondidos em meio a vegetação do local e esperamos por algum tempo. Do outro lado da margem 4 jacarés tomavam sol, enquanto outros apontavam os olhos e o focinho dentro da água. A lagoa era cercada por árvores de tamanho médio e nelas pudemos observar um gavião belo, um casal de mutuns e uma curicaca cinza que soltava seu canto estridente em intervalos regulares. Após alguns minutos de espera, apareceu no local um bando de quatis para beber na lagoa. Eles andavam sempre com a cauda levantada e além de matarem a sede, aproveitaram também para remexer à lama das margens à procura de alimento. Ficamos ali por mais ou menos 1 hora e depois pegamos o caminho de volta a sede do posto Santo André. No caminho de volta ainda pudemos observar e fotografar um casal de araras azul que se encontravam em uma árvore alta á beira da trilha onde a charrete passava. Ao chegarmos ao posto, enquanto Cássio e Guilherme foram preparar o almoço, eu e meu pai fomos tentar encontrar mais alguma espécie nas proximidades. E acabou valendo a pena, pois logo encontramos com um grande tatu peludo. Ele parecia não enxergar muito bem, pois conseguimos chegar muito perto dele, foi quando ele pareceu notar nossa presença, e se apoiando nas pernas traseiras, levantou o corpo e farejou o ar virando a cabeça para os lados, ficando numa posição no mínimo curiosa, na qual eu pude registrar em uma fotografia. Por volta das 11 horas o almoço estava pronto, e novamente pudemos experimentar e aprovar a comida que Guilherme e Cássio haviam preparado. Infelizmente, a nossa estadia no posto Santo André estava chegando ao fim. Logo após o almoço arrumamos nossas mochilas e nos despedimos do Guarda Parque Guilherme enquanto a caminhonete já nos esperava para fazer o trajeto de volta até as margens do Rio Cuiabá. Mas antes da nossa saída da Reserva, o Guarda Cássio ainda nos iria acompanhar até um corixo conhecido como Riozinho, onde existia um ninhal de cabeças-seca. Partimos do posto Santo André por volta das 12:30 na caminhonete , e para nossa grande surpresa, após termos andado menos de 1 km, avistamos dois machos de cervo do pantanal que bebiam água em uma pequena poça. Cássio pediu para o motorista da caminhonete tentar aproximar com o veículo dos dois animais, pois do lugar onde nos encontrávamos, só era possível avistar a cabeça dos animais.  Ele teve que sair com o veículo fora da estrada e dirigiu cerca de 50 metros em meio ao capim alto do cerrado. Ao parar, eu desci da caminhonete e os dois animais que se encontravam escondidos pela vegetação, saíram lentamente de dentro da água e passaram andando um atrás do outro em campo aberto à apenas uns 15 metros de onde nos encontrávamos, enquanto eu aproveitava para tirar muitas fotos. Os dois possuíam pequenas galhadas sobre à cabeça, sendo que um parecia ter uma espécie de capa aveludada sobre a mesma fazendo-a ficar de uma cor amarelada, enquanto a do outro era mais curta e não possuía esta capa, fazendo com que a coloração fosse branca.  Foi um dos melhores momentos que tivemos na RPPN do Sesc. Segundo nos disse o guarda Cássio,  os dois machos da espécie ainda eram jovens, provavelmente irmãos, pois os machos adultos de cervo do pantanal não andam juntos.  Após algum tempo os dois saíram em disparada, mas foi o suficiente para conseguirmos boas imagens e fotos.

Continuamos o caminho de volta passando novamente pelo Posto São Luís onde logo ao pararmos avistamos ao longe um pequeno grupo de veados campeiro que se encontravam a uma boa distância da sede do posto. Caminhei na direção dos animais, tentando sempre me esconder atrás de alguma coisa, e deste modo acabei chegando até uma árvore que havia tombado e acabou servindo como o  esconderijo ideal pois estava a poucos metros dos bichos. Assim consegui fotografar os dois machos de veado campeiro que se encontravam pastando logo a minha frente. Após tirar algumas fotos, resolvi sair de trás da árvore morta e caminhar em um local mais aberto onde os dois acabaram notando a minha presença, mais para minha surpresa, eles não se incomodaram e continuaram a se alimentar. Foi quando ao me aproximar, percebi que havia também uma fêmea da espécie, que se encontrava um pouco mais distante. Fiquei por ali mais alguns minutos, mas logo voltei a sede do Posto para seguirmos a viagem de volta.  Passamos pelo Posto Espírito Santo, mas desta vez não paramos, e quando estávamos chegando ao corixo do Riozinho, aconteceu um pequeno imprevisto, pois a caminhonete acabou atolando em um trecho da estrada onde havia grande quantidade de areia. Descemos todos do veículo, e com o auxílio de ramos cortados e colocados embaixo dos pneus  escavações feitas na areia e a ajuda de todos para empurrar, conseguimos tirar a caminhonete depois de muito esforço.

Por volta das 14 horas chegamos as margens do Corixo do Riozinho onde outros Guardas Parque já se encontravam com um barco à motor e também uma charrete que serviria para nos levar de volta daquele local até as margens do Rio Cuiabá, depois de conhecermos o corixo. Mais uma vez, quem nos acompanhou no barco à motor pelo Riozinho foi o Guarda Cássio. Logo ao começarmos o passeio pelo local, percebemos a grande quantidade de vida animal que habitavam as suas margens. Jacarés eram encontrados tomando sol a todo momento, avistamos também algumas iguanas nas praias, no meio de um emaranhado de raízes no barranco, as ariranhas apareceram e rapidamente saltaram para à água colocando a cabeça e o peito que possuía uma mancha branca para fora e com uma velocidade incrível mergulhou e não conseguimos mais encontrá-las. Os peixes eram tantos que cerca de 3 ou 4 saltaram para dentro do barco. Como eram muito pequenos Cássio aproveitou e os cortou para servirem como isca para as piranhas. E como tinha piranha naquele lugar, em pouco mais de 20 minutos, Cássio com uma vara de bambu conseguiu pescar  o suficiente para preparar um caldo de piranha para o jantar.  Curioso, foi o fato de alguns jacarés ao perceberem a agitação na água, causada pelas piranhas que estavam sendo fisgadas, vieram nadando na direção do barco e ficaram praticamente encostados na embarcação esperando pela oportunidade de conseguirem comida mais facilmente, pois as piranhas são um dos principais alimentos dos jacarés na natureza. E o que dizer então das aves ! O Riozinho era o local ideal para elas. A cada momento nós avistávamos uma espécie diferente. Vimos o colhereiro, o biguá, o tuiuiú, o martim-pescador, a garça branca, o baguari, a biguatinga, o socó-boi-ferrugem que emitiu seu som característico parecendo com um boi realmente, e muitas outras espécies. As margens do corixo havia uma árvore que as cabeças-secas haviam escolhido para fazer seus ninhos. A quantidade de aves e ninhos deixavam a árvore  sem folhas e ao invés do verde, o que predominava era o branco das aves. Havia filhotes de cabeça- seca de diversos tamanhos no ninhal, e ao longe era possível ouvir o som deles reclamando por comida aos pais. Logo abaixo do ninhal gaviões caracará e jacarés esperavam pela oportunidade de algum filhote infeliz ou mesmo um ovo viesse cair dos ninhos e servir de alimento para eles.

Ficamos ali por alguns minutos admirando as aves, os peixes que sempre saltavam para fora da água, os predadores que esperavam sua oportunidade, os sons dos mais variados, e naquele momento nos sentimos  como se estivéssemos voltado no tempo cerca de 500 anos atrás, na época do descobrimento, quando tudo ainda se encontrava exatamente como Deus havia criado, sem nenhuma alteração provocada pelo homem. Dessa maneira nos despedimos do Corixo do Riozinho e também do Guarda parque Cássio, que tão bem nos acompanhou naqueles 2 dias na Reserva. Da margem do Corixo até a do Rio Cuiabá seguimos em uma charrete e nesse curto trajeto ainda encontramos com uma cobra caninana que atravessou rapidamente à nossa frente. Por volta das 16 horas, deixamos a RPPN do Sesc em definitivo em um barco à motor que nos levou em cerca de 40 minutos de volta ao Hotel Sesc Porto Cercado.

Enfim, foi uma experiência muito gratificante, podermos conhecer a RPPN do Sesc, melhor ainda foi saber que existem pessoas sérias e competentes que dão a suas vidas para proteger esta área tão privilegiada e rica em tantas formas de vida. Fica acima de tudo o exemplo a ser seguido pelo Sesc, que ele sirva como um incentivo ao governo, à instituições privadas ou pessoas comuns, de como é importante a preservação do meio ambiente e a criação de áreas de preservação permanente em nosso país, pois belezas naturais são o que não faltam em nosso querido Brasil.                                                                                                    

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