Geiser Trivelato

fotografo e guia de birdwatching

Transpantaneira 35 anos depois - novembro de 2005

(Matéria escrita por Geiser Trivelato, publicada na Revista “Terra da Gente” edição nº19 de novembro de 2005)

O plano era atravessar o Pantanal de norte a sul, mas a rodovia parou no meio, devido ao excesso de custos, pontes e críticas. Isso foi em 1970. Revisitamos a polêmica via, hoje convertida em estrada-parque, para ver como ela sobrevive... 

A idéia de ligar Poconé, no Mato Grosso, a Corumbá, no Mato Grosso do Sul, era facilitar o transporte e venda do gado, na melhor fase da pecuária na região. A construção começa com os anos 1970 e um projeto de 340 quilômetros. Mas apenas a parte norte, no estado do Mato Grosso, sai do papel, ligando Poconé a Porto Jofre, às margens do Rio Cuiabá. A Transpantaneira pára na divisa estadual, com uma extensão final de 145,5 km, toda de terra. No percurso, há 122 pontes, a maioria de madeira. O plano de terminar a Transpantaneira nunca foi abandonado e, volta e meia, a construção da outra parte da estrada volta a ser discutida. Mas a idéia encontra muitos obstáculos, assim como a proposta de asfaltamento do trecho já construído. No centro das discussões está a necessidade de proteger a fauna, cuja diversidade é justamente o que nos atrai.

Para quem percorre a Transpantaneira no auge da seca, como nós, o fluxo das águas parece correr normalmente por debaxo dela. Mas não há como negar que a estrada funciona como uma barragem para as águas rasas e espraiadas, que antes fluíam livres: mesmo com uma ponte praticamente a cada quilômetro, em diversos pontos formam-se lagoas ao lado da rodovia.

Nossa jornada leva 7 dias. As boas vindas, em Poconé, ficam por conta de um céu azul sem nuvens e um calor de 33ºC. A cidade, de 30 mil habitantes, já foi maior, no auge dos garimpos de ouro, nos anos 80. Poconé agora é mais conhecida como o início da MT 060 ou a Rodovia Transpantaneira, parada obrigatória para quem vem ao Pantanal Norte como ecoturista, pescador ou observador.

Os primeiros 16 km ainda não fazem parte da planície do Pantanal e não são afetados pelas águas e, por isso, a quantidade de animais avistados ainda é mínima. Porém algumas aves típicas da região fazem as honras da “casa”: Tapicuru (Phimosus infuscatus), socó-boi-ferrugem (Tigrisoma lineatum), garça-baguari (Ardea cocoi) e uns jacarés-do-pantanal (Caiman crocodilus yacare) surgem em barreiros de água para o gado, nas fazendas. Esse trecho inicial será asfaltado e a obra já está em andamento.

Um portal – “Aqui começa o Pantanal Mato Grossense” – e um posto da polícia ambiental marcam o km 17. A partir dali a Transpantaneira se torna Estrada-Parque, e logo avistamos uma grande diversidade de espécies, principalmente aquelas ligadas aos ambientes aquáticos. Topamos com Tuiuiús (Jabiru mycteria), ave símbolo do Pantanal; colhereiros (Platalea ajaja), com seu bico em formato de colher; biguás (Phalacrocorax olivaceus); um Martim-pescador-grande (Ceryle torquata) pousado na fiação elétrica, e três gaviões: o caramujeiro (Rosthramus sociabilis) com seu bico muito curvo, especializado em comer caramujos; o belo (Busarellus nigricollis), que faz justiça ao próprio nome, e o imponente gavião-preto (Buteogallus urubitinga), um dos maiores naquelas paragens.

Mas o que mais impressiona é mesmo a enorme quantidade de jacarés, em ambas as margens da estrada. São centenas, amontoados, lutando pelo melhor lugar para o banho de sol, necessário para manter a temperatura corporal. Seguimos,atravessando as primeiras pontes de madeira, em bom estado de conservação. Notamos algumas placas educativas e ecológicas, alertando, sobretudo, para a travessia de animais, cujo índice de atropelamento é bem alto, com jacarés, cachorros-do-mato, capivaras, jaguatiricas, tamanduás e tatus entre os mais atingidos.

De acordo com Dalci Oliveira, da Biologia e Zoologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), “existe um projeto de demarcação das áreas com maiores índices de atropelamentos para instalação de telas de proteção e passagens para os animais, entretanto, até agora, não foi posto em prática. No meu entender, haveria melhora com a limitação da velocidade, na rodovia, a um máximo de 50 a 60 km por hora”. O asfaltamento na estrada-parque, ao contrário, aumentaria a velocidade e o risco para os animais: “a 50 km/h as chances de atropelamento são próximas de zero. A 120 km/h os riscos serão de 80%”, alerta.

Seguimos. E a fauna continua se mostrando. Em uma dessas pontes, com água represada, avistamos a garça-azul (Florida caerulea) espécie mais rara no Pantanal, com a plumagem totalmente azul escuro parecendo cinza-chumbo de longe. Na mesma lagoa também havia uma saracura-três-potes (Aramides cajanea), um casal e um filhotão de jaçanã (Jaçanã jacana). O casal adulto com sua plumagem característica nas cores castanho-avermelhado e negro, e o filhotão com a plumagem marrom clara nas asas e dorso e branca no ventre. Quando a ave adulta alça vôo, mostra o interior das asas, um lindo leque amarelo que não se vê quando a ave esta de asas fechadas.

Aparece um animal morto por atropelamento: um jacaré. Notamos que a seca desse ano é bem forte, pois há muitos pontos abaixo das pontes já sem nenhum pingo d’água. Nosso guia André Luiz Cumpri, relata que a vazante foi mais rápida que nos anos anteriores. Duas aves de campos e cerrados aparecem mais adiante: o gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis) e o Tucanuçu (Ramphastos toco).

Ao transitar pela transpantaneira, logo se vê como foi construída: um grande aterro, quase sempre em linha reta, feito com terra tirada de caixas de empréstimo, deixando depressões nas laterais da rodovia. Na época das chuvas, as depressões se enchem de água, formando lagoas, sinônimo de abrigo e alimento para a mais variada fauna, principalmente peixes, caramujos, caranguejos, aves e jacarés. Antes de chegarmos ao km 33, ainda avistamos o maçarico-pernalonga (Himantopus himantopus) e o trinta-réis-pequeno (Sterna superciliaris).

Saímos para a direita, num aterro de 7 km até a fazenda Pouso Alegre, para passar noite. Um grande bando de capivaras (Hydrochaeris hydrochaeris) aparece e ainda avistamos um araçari-castanho (Pteroglossus castanotis), da mesma família dos tucanos, mas de porte bem menor. O final de tarde ainda permitiu uma pequena caminhada numa cordilheira, como são chamados os capões de mata que, mesmo nas cheias, nunca são invadidos pelas águas. Aí vimos o João-pinto (Icterus icterus croconotus) com sua espetacular plumagem cor de laranja com preto. Uma família de bugios (Alouatta caraya) e uma cutia (Dasyprocta sp.) passam por nós e conseguimos encontrar a ave que dá nome à trilha, o urutau (Nyctibius griseus), pousado imóvel num galho, como se fosse mais um dos ramos da árvore.

Quando o sol se põe surgem as araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus), e se ajeitam para pernoitar nas árvores. O dia acabou, mas o desfile da fauna, não. Saímos para uma focagem noturna e avistamos um veado-mateiro (Mazama americana), capivaras e um casal de cachorros-do-mato (Dusicyon thous), chamados no Pantanal de lobetes. Um deles chega bem perto. Estranhei que viesse em minha direção, então descobri que caçava um pequeno roedor. Assim que capturou a presa, deu meia volta e se afastou rapidamente. Mas a melhor parte da focagem viria em seguida: ao ser iluminada, uma das pequenas lagoas revelou o maior mamífero terrestre brasileiro, a anta (Tapirus terrestris). Arisca, tão logo percebeu nossa presença, ela tratou de se refugiar na vegetação mais alta.

Ao amanhecer, nada menos que 17 espécies de aves se mostram, entre pássaros multicoloridos, pombas e as típicas curicacas e cabeças-secas. Para voltar à Transpantaneira precisamos empurrar o veículo, sem bateria, consumida no focagem da noite anterior. Seguimos até o km 38 para um passeio a remo pelo Rio Clarinho. Em toda a extensão da rodovia existem diversos rios – Bento Gomes, Claro, Clarinho, Pixaim, Cassange – que na seca não correm para lugar nenhum e podem ser considerados corixos. Colocamos a canoa canadense no Clarinho e remamos pelas águas calmas, 10 km, ida e volta. Somos recebidos por patos-do-mato (Cairina moschata); biguatingas (Anhinga anhinga); arapapás (Cochlearius cochlearius), espécie de garça de hábitos noturnos com um estranho bico achatado; soldadinhos (Antilophia galeata) e um mutum-pinima macho (Crax fasciolata), diferente da fêmea por ter o ventre branco, o bico amarelo e a plumagem preta, enquanto ela tem ventre cor de canela e plumagem riscada de branco sobre preto.

Uma família de Ariranhas (Pteronura brasiliensis) vem em nossa direção. Eram cinco animais, mergulhando e aparecendo. Passaram por nós sem interromper a procura por peixes, seu principal alimento.

A próxima parada é a Torre do Bugio, a mais alta torre de observação da Transpantaneira, com 21 metros, localizada no km 32. Caminhamos quase uma hora – 2 km – numa passarela de madeira, acessível mesmo na cheia. Um grande bando de macacos-prego se aproxima, fazendo poses para fotos, depois continua em busca de alimento, verificando cada folha à nossa volta. Um deles sobe num Acuri e luta para arrancar os coquinhos. Come apenas a parte externa do fruto, mais macia, e joga a dura castanha no chão. Na torre, uma família de bugios parecia nos esperar. Logo que nos vêem, chegam perto sem medo. Colocamos água na tampa do cantil e eles não hesitam em beber. “Uma das polêmicas trazidas com o turismo no Pantanal é a alimentação de animais silvestres”, observaria, mais tarde, Dalci Oliveira, da UFMT. “Isso muda seu comportamento natural, então o ideal é só observar e não participar da vida deles”.

Lição aprendida, a próxima parada é no km 65, fazenda Santa Tereza, onde temos um barco a motor pronto para percorrer o Rio Pixaim. Vemos um grupo de ipequis ou cachorrinhos-do-rio (Heliornis fulica) que apesar do nome popular, são pequenas aves, parecidas com marrequinhas. Nadam e mergulham muito bem e vivem sempre ao longo de rios ou corixos, com vegetação marginal densa.

Odair Francisco Mendes, 23 anos, natural de Poconé, credita à Transpantaneira o aumento no número de empregos na região relacionados ao ecoturismo. Diz que muitas fazendas mantém o gado, mas se adaptaram para receber turistas e “com isso o pessoal de Poconé passou a vir trabalhar na região da rodovia, como guia ou nas pousadas”, incluindo-se nesse ‘pessoal’. A fazenda Santa Tereza é um exemplo: ali se cria gado há 100 anos e a pousada tem oito anos.

Dia seguinte, ao passarmos por uma espécie de valo, tomado por plantas aquáticas, notamos algo se mexendo. Lá estava uma cobra com cerca de 2 metros, de coloração amarelada com faixas pretas. No início só podíamos ver a cabeça, o restante do corpo estava submerso. Devagar ela sai de dentro d’água para alcançar uma grande moita de capim, fora do nosso alcance. Parecia uma Boipevaçu (Hydrodynastes gigas), identificação confirmada pelos pantaneiros.

Mais um dia e topamos com o maior cervídeo das Américas, o cervo-do-Pantanal (Blastocerus dichotomus). E não só um exemplar: sete cervos pastavam no mesmo trecho! Nossa sorte com grupos prosseguiu na madrugada. Acordamos para ver o sol nascer no Rio Bento Gomes, com o maior número de colhereiros de toda a viagem, espalhados pelas águas rasas, procurando alimento com o bico, em meio ao lodo.

Percorremos a ‘baía’ do rio num barco a zinga. Ou seja, em lugar de motor, o piloteiro usa um grande remo de madeira, que empurra contra o fundo. Silencioso, esse é um passeio bom para observar fauna. Chegamos pertinho de uma grande concentração de talha-mar (Rynchops niger), voando bem rente à superfície da água, com o bico aberto, riscando...

Passamos à Fazenda São Cristóvão e lá conversamos sobre pesca com o proprietário, Pedro Vaz Guimarães, 53 anos. “Por aqui, no Bento Gomes, o peixe praticamente acabou. Antes quem pegava piranha pequena jogava de volta no rio. Agora, se pescar alguma já está muito bom para caldo. Pescamos só com anzol para o consumo e, mesmo assim, quase não existe mais peixe”, lamenta. “A pastagem também ficava verde nos meses de junho, julho e, com isso, muitos animais apareciam. Hoje em dia, a enchente parece matar o capim. Pode ser devido ao uso de agrotóxicos, nas lavouras lá em cima, que vêm com as chuvas”.

Problemas assim mostram a necessidade de gestão ambiental integrada e parcerias entre ambientalistas, fazendeiros e operadores de turismo. Numa viagem de 7 dias pela Transpantaneira, avistamos cerca de 115 espécies de aves, 13 de mamíferos e 4 de répteis. E encontramos 3 animais mortos por atropelamento. Ao longo da rodovia, as pousadas recebem poucos brasileiros (5%) e muitos estrangeiros (95%), a maioria dos quais são birdwatchers, ou observadores de aves. Os brasileiros são pescadores, de passagem para Porto Jofre. A fauna é a ‘isca’ para ambos e a Transpantaneira, a via de acesso. É preciso garantir que ambas continuem a existir, assegurando, ao mesmo tempo, o fluxo das águas e dos ecoturistas conscientes. 

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